Lamento
Eu te penso e te escrevo
Para a aflição aliviar,
Mas ainda que ao teu lado,
Mesmo ao te tocar,
Não sei o que fazer com a alma
Que me escorre pele abaixo,
Ou com teu espírito em minhas mãos;
Se engulo as lágrimas ou a carne
Do coração sem dono
Que ousa me dilacerar em vão.
Me apaixonei pela dor
Que é te amar,
E toda consciência te entrego.
Não digo que te quero
Por só saber te necessitar,
E de meu anseio hei de beber.
Banhar-me-ei de teu sangue
Se meus olhos eu puder te oferecer.
Do sofrer tardio e das vísceras que carrego
Dentro de mim, não os conheço.
Somos o que jamais fui,
Seremos até esgotar qualquer penitência,
Inexistente, carente e vil.
Todas as estrelas me enlouquecem,
Todos os dias me menosprezam
Quando somem as memórias da fúria gentil.
Já não vivo mais sob teu céu,
Finito quando longe,
Mas com o arder do enxofre
Que minhas feridas abriu.
Incerto do que é estar em teu abraço,
De onde fugimos como tolos
Até nele tropeçar,
Escondido entre os espinhos
Venenosos deste esquecido jardim.
Choraria teus medos
E brindaria teus erros
Se pudesse contigo dividir a taça
Que bradaria nosso fim,
Triste, perigoso e do avesso.
A culpa que carrego
É a mentira não contada,
A cobiça que eu nego
Quando tua cruz escolhi carregar.
Bordadas em meu manto,
Entoo as palavras de veludo,
Sussurradas para não te alcançarem
Apesar de suas preces clamarem por mim.
Nem o tempo nem o espaço nos caberiam
Chegada a hora de nosso pacto carmesim.
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